MARC AUGÉ – OS DEUSES VODU

284NB_003bis

Respeite os direitos autorais, copiar e não informar as fontes de onde você retirou o material é crime.
Atualmente, em cada vilarejo do sudeste do Togo, praticamente todo o panteão [Vodu] é reproduzido. Isto significa que cada deus está presente em cada vilarejo, mas também que pode estar presente no mesmo vilarejo em vários exemplares. Essa reduplicação do sistema global e a propagação dos elementos singulares correspondem à dimensão social do panteão: os deuses são transmitidos por herança agnatícia por ocasião da morte de seu instalador e os conventos são
criados e mantidos com base na linhagem familiar. As interpretações de acasos da vida em determinadas ocasiões (geralmente de infelicidade) são reorganizadas
em função de dois parâmetros: as relações de parentesco com os homens e com os deuses.

Kerchache_22

A relação dos homens com os deuses é, portanto,
amplamente difundida no plano social, tanto pelo
aparelho institucional divinatório como pelas
regras de transmissão que impõem aos filhos as
obrigações que incumbiam ao pai. Os deuses,
em conjunto, compõem um sistema bem ordenado, capaz de balizar o caos aparente das vidas humanas individuais e diversificadas; mas cada figura do deus (não somente um deus preciso do panteão do céu, mas uma manifestação precisa desse deus em uma linhagem precisa) perde em clareza o que ganha em singularidade, provavelmente pela maior proximidade para com o homem por ela responsável. Sua posição simbólica não neutraliza, porém, sua complexidade. Tal como um corpo humano, ela tem seus humores, seus momentos de manha, ao mesmo tempo próxima e distante daquele que a considera como seu deus. Embora a estátua do deus represente alusivamente um corpo humano, embora deva, como ele, comer e beber e embora possa também, como ele, morrer, essa fisiologia metafórica não atenua o mistério de sua materialidade. O deus é coisificado, torna-se um objeto híbrido cuja fórmula pode ser restituída ou adaptada, com maior ou menor fidelidade, em cada uma de suas realizações singulares; imaginado como um corpo vivo, ele é também matéria – e os relatos que retraçam seu nascimento, suas proezas e suas invenções elaboram uma reflexão literalmente problemática sobre a matéria e sobre a vida.

Fondation Cartier

1. Publicado pela primeira vez em Marc Augé, Le Dieu Objet, Flammarion, Paris, 1988, p. 26 a 27.

Respeite os direitos autorais, copiar e não informar as fontes de onde você retirou o material é crime.

Curtir no Facebook by Sofo Andreia Camargo.

Seguir no TWITTER

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s