O Lágdibá e o Hunjevi

hunjevilakidiba

O Lágdibá ou Lakidibá, é o fio de conta de Azançu, entregue aos seus vodunsis nas cerimônias de sete anos de iniciação. É feito de chifre de búfalo, considerado um animal sagrado na África, ligado às cerimônias de fecundação da terra. Símbolo dos Anciãos africanos. Existe lágidiba feito com talo de palmeira (Igi Opé), e existe ainda, um lágdiba branco feito de marfim, ligado a Vodun-Fá, muito usado pelos Bokonõ (semelhante aos baba’lawo). Representa a sabedoria e a elevação divina. O poder e a força da fecundidade e da re-criação de tudo e do Todo. O lágdiba também representa a paciência, a calma e a sabedoria dos anciãos.
Em algumas regiões da África, o búfalo (assim como o boi), é considerado um animal sagrado, oferecido em sacrifício, ligado a todos os ritos de louvação e fecundação da Terra.
Hoje, algumas pessoas estão usando indiscriminadamente o Lágdiba, independente de qual seja o seu Vodun. Deve-se lembrar que esse fio possui um simbolismo muito forte ligado à morte …

Hunjevi

Hunjevi – também chamado Runjebe, usados como simples colares por quem não tem noção dos seus significados.
O Candomblé é uma filosofia religiosa, onde tudo o que existe no mundo tem o seu momento de sagrado. Portanto, devemos ter cuidado ao usarmos certos elementos que se popularizam com a febre das bijuterias, como a palha da costa, os búziose os próprios fios referentes aos Voduns, Orixás e Nkises, que são vendidos livremente por camelôs de feiras hippie.
O hunjevi, bem como o lágdiba são fios de conta sagrados da Nação Jeje e que exige toda uma cerimônia na confecção e sacralização destes fios de contas. O hunjevi representa a ligação entre o céu e a terra, a vida e a morte, a continuidade, o transcendental. O seu próprio nome significa “Caminho par a Sagrado”, caminho que leva a Avié-Vodun (Deus). Semelhante a Olódùmarè ou Zambi Apungo.
Antigamente, somente vodunsi (da nação Jeje) recebiam o hunjevi. As questões históricas e o intercâmbio cultural entre as Nações de Candomblé, justificam por si só o uso do Hunjevi por pessoas de Ketu e até de Angola (nas que adotam o fio), após 7 anos de iniciado.
Nas casas de Jeje tradicionais, o hunjevi é entregue ao vodunsi na ocasião da sua iniciação, e quando o vodunsi morre, ele leva seu hunjevi consigo.
O hunjevi possui a quantidade certa de miçangas, corais e seguis relativos a quem o receberá, e, por isso, é um fio único, individual e intransferível. Ninguém, jamais pode colocar no pescoço ou tocar desrespeitosamente um hunjevi que não seja o seu.
O vodunsi, não pode, e não deve confeccionar o seu próprio hunjevi. Nunca! Caso o hunjevi arrebente, e isso não é boa coisa, apenas o doté ou a doné(zeladores do vodunsi), podem enfiar o fio de novo e prepará-lo devidamente para ser usado novamente.
Não se enrola hunjevi no pescoço (duas voltas ou mais), isso fere todo o fundamento de seu significado. Quem usa hunjevi com duas voltas no pescoço, com certeza não conhece, ou não entende, o valor deste fio de conta. Ou não respeita seu próprio vodun. Como todo fio de conta, o cumprimento do hunjevi é determinado por questões que envolvem o vodun da pessoa e até fatores físicos do vodunsi que o receberá.
O hunjevi é composto de miçangas nas cores terra-cota, segui (corais azuis) e corais propriamente ditos.
s corais são os atin sá (árvores) das águas, que conhecem as profundezas escuras da origem de toda a vida que existe neste mundo. O coral representa os elementos dos três reinos existentes na natureza: o reino animal, vegetal e mineral. Por isso, simboliza o princípio e o fim. A ligação entre a vida e a morte.
O povo do Danxomé (Barriga de Dan), costuma dizer que os segui do hunjevi são as fezes do grande Vodun Dan Gbala Howedo. As fezes de Dan.

Ética

Temos que ser muito claro para falarmos de ética dentro de uma determinada religião, o primeiro impulso que devemos ter é de fazermos uma separação entre o que se entende por bem e mal. Ao falarmos da religião de Umbanda e das religiões Afro-brasileiras ou afro-descendentes como preferem alguns, não podemos nos envolver com conceitos cristãos de pecado, haja visto não fazer parte de nosso universo religioso.

Estas religiões, desde que existem, têm normas que lhes norteiam mas que nem sempre são do conhecimento e observância de seus sacerdotes, pois cada Babalorixá /Iyalorixá ou Dirigente Espiritual cuida de colocar suas próprias normas dentro de suas Casas. Isto ocorre até porque não temos um único Mandatário Supremo, todos são supremos em seus Axés. Porém, isto não impossibilita que todos se unam para zelar pelos “Códigos de Ética” que sempre existiram, muito embora a idéia é que só agora estamos criando essas normas.

Ocorre que para isto todos somos chamados a observar e cumprir com essas posturas, passarmos para nossos filhos e simpatizantes aí já estaremos ajudando e muito para que a religião tenha seu lugar de respeito e credibilidade. Como disse, tenta-se por no papel aquilo que na prática já existe e só precisa ser observado.

Vejamos pois que normas, que códigos devemos observar:

1 . É imperativo que dentro da Umbanda e dos Cultos Afro-brasileiros, todos estejam preocupados em manter a tradição religiosa e cultural de seu grupo, sem misturas e enxertos, sem junções e adições absurdas e desastrosas e que estas mesmas religiões deixem de se preocupar apenas com a parte litúrgica, para também se dedicarem ao bem-estar das pessoas, da comunidade como um todo, do país, do mundo, e também que esteja sempre presente a preocupação na preservação do meio ambiente, lembrando que somos uma religião ecológica por excelência.

2 . Precisamos aprender a respeitar a nação do outro, pois todos os segmentos têm origem em comum na Mãe África, cultuam Orixá, Vodun, Nkissi, Bacuro, Encantados e Guias que são muito queridos e amados por seus adeptos. O desrespeito à liturgia e ao ritual de cada um incorre num grande mal para toda a comunidade afro-brasileira.

3 . Precisamos ter respeito com os mais velhos, com os Agba da religião, com nossos ancestrais. Vê-se hoje em dia pessoas novas chamando a atenção e querendo ensinar os mais antigos. Se os mais velhos não souberem nada, o que diremos dos novos? Pensamos que se precisa de entendimento e muito diálogo entre as gerações a fim de se tirar o melhor proveito. Mas tudo com seriedade e dignidade.

4 . Em todos os grandes eventos (Congressos, Seminários, Encontros etc.), deve-se ter um Cerimonial adequado para se ver “quem é quem”, dando-se as devidas precedências e evitando-se constrangimentos ao se destacar, por exemplo, um filho em detrimento de seu pai. É anti ético.

5 . Nas festas religiosas (Toques), devemos nos preocupar com nossos convidados e dar-lhes a atenção devida, também fazendo com que todo o Egbé saiba se portar e respeitar. É desagradável chegarmos a lugares onde muitos torcem a cara e ignoram aqueles que com carinho ali estão para prestigiar e participar.

Urge que conversemos com nossos Sacerdotes e adeptos para que não confondam religião com “questões sexuais”. Graças à Avievodum, Olodumare, Zambiapongo, temos uma religião liberal que não nos castra. Entretanto, muitos aproveitam-se de seus cargos e postos para desfilarem frustrações sexuais e travestirem nossa Religião colocando-nos em descrédito perante às autoridades e à própria sociedade; Devemos lutar pela união sincera e verdadeira das pessoas interessadas na preservação dos nossos segmentos religiosos. A discórdia, a desunião, a intriga só enfraquece a própria religião. Cada um deve fazer sua parte, com critérios, com seriedade, com dignidade. Não devemos nos ver como concorrentes mas como membros unidos de um mesmo corpo.

Precisamos acabar com a idéia de que um é melhor que o outro. Para nossos Deuses somos todos iguais. Será, por exemplo, que meu Vodum Toy Azonce só gosta de mim e não gostará de outros seus filhos? Será que Odé, Oxósse, Águè só ama um filho e esquece os outros? Não, certamente que não, o problema é individual, é pessoal, é falta de boa formação, de bom berço; Vamos lutar para que os Congressos sejam fórum de grandes decisões, de momentos de verdadeiras reflexões, de congraçamentos, de bons e felizes reencontros e não que deixemos nossos lares para nos virmos nos degladiar.

Não devemos confundir pontos de vista diferentes com geração de ódio. Isso não é ético; Vamos valorizar com toda sinceridade as diferentes formas tradicionais dos cultos afros. Lutemos por uma união e não por uma unidade. Daí o lema da INTECAB que é a “união na diversidade”; Resgatemos a língua de cada culto e devemos usar nossos títulos corretamente. Jamais deve-se estimular o absurdo, a invencionice, títulos inadequados. Por exemplo: não é ético chamarmos uma Sacerdotisa de Umbanda de Iyalorixá pois esta não foi iniciada e nem inicia ninguém.

Seu grande valor está em ser uma Dirigente Espiritual, uma digna Babá de Umbanda sem nenhum demérito de seu potencial espiritual e material; Todos temos o dever de recusar a efetivação de rituais religiosos que firam sua tradição de origem e sejam contrários aos ditames de sua consciência; É de suma importância zelar pela dignidade da tradição e cultura Afro-brasileira em todos os seus níveis de desdobramentos, sendo este o papel preponderante de todos os verdadeiros Sacerdotes; Somos todos tradicionalistas: da Umbanda, do Kêtú, do Mina Jêje, do Ifon, da Angola, do Jêje Mahi, do Omolocô, do Nagô Egbá, do Alakêtú, do Mina Nagô, da Encantaria, da Tradição de Orixá ou do Fanti-Ashanti, desde que sigamos nossos rituais e costumes legados por nossos antepassados.

Esta é uma postura ética que precisa ser levada em conta; A exploração que alguns sacerdotes fazem com seus filhos é imoral, antes de ser ética, e precisa de grandes reflexões. Tenta-se criar a idéia de que quanto mais dinheiro, mais axé, e assim torna-se comércio. Cobrar “salva” ou chão” é entendido como axé, mas exploração é caso de polícia; Outro tema polêmico e delicado diz respeito a quebra de tabus religiosos, incluindo-se nestes os relacionamentos sexuais entre pais e filhos de uma mesma casa.

Comete-se o incesto; Finalizamos abordando a questão do “Jogo de Búzios” antes exercido somente por grandes e sábios sacerdotes e sacerdotisas, de forma extremamente sagrada, e hoje feito em praças públicas, viadutos, feiras esotéricas, shoppings, sem falar no “disque búzios” e “0900”, que tanto entristecem os tradicionalistas.
oloje iku ike obarainan

Autor: Ally Nebarack Gomes

5 comentários

  1. Boa tarde, faço uma pergunta: o Hunjevi quando quando se faz o 7 ejodu se recebe, mas a dúvida é a seguinte: ele fica no ibá do santo ou o filho que passa por esse ritual o carrega consigo e dá os devidos cuidados? ou ainda confecciona um outro para uso quando necessário?
    Att
    Márcia.

    1. Salve Marcia O Hunjevi na verdade deveria ser entregue na iniciaçao da vodunsi, mas devido a saida de muitos vodunsis de suas casas de origem os antigos optaram em entrega-lo apenas quando pagam o sete anos. Na verdade o certo é entregar na iniciaçao mas essa pratica foi mudada devido a esse incomodo e muitos sacerdotes e sacerdotisas optaram a nao entregarem na iniciaçao e entregam apenas aqueles filhos que o merecem…Uma forma de obriga-los a serem fiéis a casa onde foram iniciados. So existe um unico Hunjevi, a joia do povo mahi.
      Um grande abraço .

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s